Moinhos de Cabeceiras de Basto

O tema que gostaria de partilhar centra-se no estudo dos Moinhos de Cabeceiras de Basto, escolhido como tema para a minha Prova Final de Licenciatura em Arquitectura e da qual resultou a publicação em 2009, do livro, Moinhos de Cabeceiras de Basto – Apontamentos de Conservação.
O concelho de Cabeceiras de Basto possui um rico legado em termos de património rural que espelha as suas origens. Num momento em que começam a surgir cada vez mais intervenções que promovem a revalorização da paisagem rural, o estudo dos moinhos surgiu, a meu ver, como o caminho a seguir para a sua sobrevivência.
Do trabalho resultou a inventariação de 384 moinhos e a elaboração de fichas individuais para cada moinho identificado. Foram ainda elaboradas cartas temáticas de análise, fazendo um estudo global e comparativo para a definição do retrato da moagem tradicional no concelho.
Periodicamente serão aqui publicados dados quanto à arquitectura dos edifícios, a forma como se inserem no meio, a sua localização face aos povoados, os seus materiais, formas de exploração, entre muitos outros aspectos, que revelam muito das tradições locais e dos quais é possível recolher muitos ensinamentos.
Uma das principais ideias que me ficou do trabalho de campo realizado foi o forte sentimento de perda que as pessoas sentem com a progressiva deterioração dos moinhos. Não só das suas construções como de todas as tradições que lhe estavam associadas. A expressão “os velhos não podem…os novos não querem, ou não sabem” era muitas vezes proferida pela população com emoção.
É assim com muito agrado que aceitei o desafio de aqui passar a partilhar o resultado da investigação e reflexão que realizei e que acabou por tomar um sentido muito pessoal, de busca e descoberta de um património com muito relevo no nosso concelho e que se encontrava por explorar.
Estão a ser dados passos importantes para a valorização dos moinhos e de todo o património que lhe está associado, que certamente aumenta a auto-estima da população cabeceirense e de todos quanto sentem orgulho na sua terra e nas particularidades que a tornam única.
Deixo aqui a singela citação com que inicio a minha reflexão sobre os Moinhos de Cabeceiras de Basto, proferida no início do século XIX pelo arqueólogo Francisco Sousa Viterbo, a meu ver muito actual e que traduz muito do sentimento das gentes de Cabeceiras de Basto.
“Tenho pena, confesso-o sinceramente, que a fábrica viesse substituir o moinho. O utilitarismo ganhou, mas a poesia perdeu. Ainda hoje o moinho em ruínas, quer no alto da montanha, quer no fundo do vale, soprando a música do vento ou murmurando a música das águas, é dos mais belos enfeites panorâmicos que conheço” (VITERBO, 1896).

VITERBO, Francisco Sousa – Archeologia industrial portuguesa: os moinhos. O Arqueólogo Português. Vol II, p. 195 (1896) .

Inês Gonçalves

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3 respostas a Moinhos de Cabeceiras de Basto

  1. Luís Filipe Silva diz:

    De facto a evolução atirou com os moinhos para o abandono.
    Resta-nos a sua preservação.
    O exaustivo levantamento está feito e bem feito pela Arquitecta Inês Gonçalves.
    Falta agora a sua recuperação, pelo menos, para mantermos viva a nossa memória.

    Luís Filipe Silva

  2. José António das Caldas Águas diz:

    Parabéns pelo seu trabalho, porquanto fez o que lhe competia usando as suas capacidades e os seus conhecimentos.
    Contudo, como vivemos numa sociedade esquisita, complicada, difícil de entender eu pergunto: Valerá a pena apostar na recuperação dos mesmos, gastando “mundos e fundos” quando as aldeias estão a ficar, cada vez mais, desertificadas? Ou seja, será útil castigar duas vezes as gentes humildes do nosso concelho? Duas vezes, sim! A primeira, porque fecham escolas por não haver crianças; a segunda, porque vão gastar dinheiro na recuperação de algo que não vai ter gente que lhe dê vida.

    • Inês Gonçalves diz:

      Obrigada pelo interesse.
      A questão que coloca é pertinente e será abordada mais para a frente. Deixo aqui uma nota para estimular o debate.
      Na minha opinião não se pode pensar em recuperação se não existir uma estratégia bem delineada e integrada. A primeira questão que se coloca é a da propriedade, os moinhos são propriedade privada, e qualquer intervenção depende logo à partida dos proprietários.
      Outra questão não menos importante é a da finalidade da recuperação. É para laborar novamente? É para recuperar apenas a construção e dar-lhe outra finalidade?
      Recuperar apenas um moinho numa sequência ao longo de uma levada, é uma coisa… mas recuperar todo o conjunto, envolvendo a população como principal actor da intervenção são formas de actuar muito diferentes e que podem conduzir ao sucesso ou falha da recuperação enquanto salvaguarda. Veja-se um bom exemplo no concelho, onde a associação GAS (Grupo Associativo do Samão) recuperou uma sequência de moinhos na ribeira do Freixo , pontualmente organizado várias actividades lúdicas e culturais nos mesmos.
      Este exemplo demostra como a mobilização dos proprietários e de associações locais conseguiu levar as comunidades locais a intervir, envolveu proprietários e artífices locais. Acções que contribuem para revitalizar práticas, aptidões e conhecimentos, melhorando a auto-estima das populações
      Defendo assim, que a recuperação dos moinhos, a realizar-se deve ser um projecto integrado. A recuperação não se pode restringir aos moinhos. Qualquer intervenção tem que ter em conta os seus elementos próximos, a coesão social e económica, pois sem se conjugar a valorização da nossa herança cultural com o desenvolvimento das áreas onde se inserem qualquer intervenção não passaria de um desperdício de meios, ao qual não nos podemos sujeitar nos dias que correm.
      Existem no país muitos casos se sucesso na recuperação de alguns núcleos dado o seu interesse histórico e envolvente paisagística. Acções de recuperação e valorização do património rural que conseguiram atrair visitantes e contribuir para o desenvolvimento de pequenos aglomerados.
      Não haverá potencialidade dos nossos “Moinhos de Rei”?
      Que a realidade nos leva a questionar a razoabilidade das recuperações, é um facto, mas o que é de um povo que não conhece a sua cultura, que não reconhece as suas raízes e que cada vez mais se limita a ver o mundo através do ecrã do computador?…
      Poucas serão certamente as intervenções de recuperação que se poderão realizar, mas considero importante que pontualmente algum proprietário sinta necessidade de deixar aos seus filhos um moinho como legado.

      Inês Gonçalves

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