Memórias paroquiais de Cabeceiras de Basto (ano de 1758): Bucos

BUCOS
Relação do que há nesta freguesia de São João de Bucos conforme os interrogatórios a que me manda responder o Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor da cidade de Braga Primaz das Espanhas. António Alves Teixeira, vigário da paroquial igreja de São João de Bucos anexa à matriz de São Nicolau de Basto, concelho também de Basto, comarca da vila de Guimarães, Arcebispado de Braga Primaz das Espanhas. Certifico que em comprimento de uma ordem do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor da Corte Primaz de Braga que me foi apresentada com um papel de interrogatórios impressos que da Majestade Fidelíssima Nosso Senhor que Deus guarde lhe tinha vindo, li e examinei o mencionado nos ditos interrogatórios. E por todos eles achei que esta freguesia de São João Baptista de Bucos é do termo do concelho de Cabeceiras de Basto, da comarca de Guimarães, Arcebispado de Braga Primaz das Espanhas, da Província de Entre-Douro-e-Minho cujas justiças são postas por El-Rei Nosso Senhor que Deus guarde. Tem esta freguesia cento e cinquenta fogos e seiscentas e setenta e duas pessoas. Está situada em um sítio quase plano que pela parte do Norte confina com a serra chamada de Maçã e pela do Sul com a matriz de São Nicolau. É terra algum tanto áspera e com alguma extensão por se meterem alguns montes pequenos entre os lugares dela. Não se descobre dela povoado algum por lhe ficarem muito distantes e encobertos com outras terras. A igreja está sita em o meio da freguesia em o lugar mais populoso dela, arrumado para a parte do Nascente, em um lugar chamado Bucos. Tem mais o lugar [à margem, aldeias] de Vila Boa, Carrazedo e Casares. O seu orago é S. João Baptista que se acha em o altar-mor para a parte do Evangelho. Tem no mesmo da parte da Epístola a imagem de São Domingos. Tem sacrário do Santíssimo Sacramento que se acha colocado no mesmo altar no meio do retábulo que é de madeira de entalha e os altos dourados e os baixos de vermelhão fino. É vigararia apresentação do reitor de São Nicolau. Renderá um ano por outro cento e quarenta mil réis. Tem mais o altar de Nossa Senhora do Rosário aonde se acha colocada a sua sagrada imagem da parte do Evangelho. E da parte da Epístola tem outro altar com outra imagem do Apóstolo São Pedro e outra do milagroso Santo António de Pádua; e ambos os altares tem seus retábulos dourados na forma do altar-mor. Tem duas capelas [à margem: ermidas] uma no lugar de Casares, com a invocação de Santa Maria que é administrada pelo Comendador que serve para administração dos sacramentos dos moradores daquele lugar por ficar muito distante da igreja. Tem outra capela em o lugar de Carrazedo de que é administrador o reverendo Manuel Gomes Martins do mesmo lugar, com a invocação de Santa Ana. Os frutos desta freguesia recebe o Excelentíssimo Senhor Conde de Atalaia Marquês de Tancos como comendador da freguesia de São Nicolau a quem esta igreja é anexa. Dá esta terra bastante milho alvo e milhão e centeio que será tudo por igual. Dá algum vinho muito verde e alguma castanha limitada. Fruta de nenhuma qualidade. Não tem correio. Serve-se com o correio da Raposeira que dista desta freguesia três quartos de légua. Dista esta freguesia da cidade de Braga, capital de Arcebispado, seis léguas e meia e da de Lisboa, cabeça do Reino, sessenta. No tempo do Terramoto de mil e setecentos e cinquenta e cinco não padeceu naufrágio algum. E neste particular da terra não há coisa alguma notável mais digna de se contar.
Tem uma serra chamada Maçã que confina com a freguesia de Santa Maria de Salto que terá de comprido no distrito desta freguesia uma légua e de largura meia. Nasce nela um limitado rio que se vem meter em o de São Nicolau, aonde se terminam os limites desta freguesia. O seu nascimento é muito humilde, mas correndo seu curso se vai aumentando nas águas, ainda que sempre pobre. Nesta serra não há povoação nem aldeia alguma e é toda inculta toda esta serra e os mais montes da freguesia se metem de carqueja e urze, tojo. Tem alguma caça de perdizes, coelhos e algumas caças grossas como são lobos, raposas, javalis ainda que tudo com pouca abundância. Os gados que nesta se criam em maior abundância são cabras e também algum gado grande. E neste particular da serra não há coisa de mais circunstância que se possa dizer.
O rio que corre por esta freguesia que vem da serra chamada de Maçã chamam o rio de Porto Souto e como já disse nasce muito pobre. Mas com efeito corre todo o ano e como é pobre de cabedais não se ostenta soberbo na corrente ainda que tem algumas cachoeiras na sua distância mas pequenas. Corre do Norte ao Sul até se meter no rio de São Nicolau como já fica dito. Da parte do Poente vem outro rio com o curso mais sereno que tem o seu princípio no lugar de Carrazedo desta freguesia e no de Figueiró do Monte da freguesia de Santa Maria de Aboim em suas humildes fontes que murmurando das ásperas terras por onde passam se vão conduzindo pela mesma parte do Norte até se irmanarem com outro rio que vem da serra da Maçã que a poucos passos se sepultam nas correntes do rio de São Nicolau aonde de todo perdem o nome. Ambos criam peixes, trutas e escalos que suposto são pequenos no corpo são grandes no gosto cuja pescaria é livre a toda a pessoa. As suas margens são cultivadas pelos seus nacionais e produzem os frutos que acima fica dito. Deste rio que corre à parte do Norte se chama rio de Moinhos. Terão ambos de distância cada um três quartos de légua. Não é navegável nem o limitado das suas águas pode admitir embarcação por pequena que seja. Tem este rio da parte do Norte uma ponte de pau em um sitio chamado Casares que é na estrada real que vai desta freguesia para a cidade de Braga e dela para este termo de Basto e toda a Província de Trás-dos-Montes que pela muita gente a que dá passagem devia ser feita de esquadria por ser estrada muito publica e frequentada. Tem mais outros passadiços em várias partes feitos em uma só trave de pau por onde passa gente de pé e por barcos e de pouca apreensão os não descrevo. Tem estes rios ambos bastantes moinhos em que os lavradores moem o seu pão. Das suas águas usam livremente os lavradores para as suas agriculturas. E não acho nestes rios coisa mais notável nem na terra nem nas serras de que se possa fazer apreensão que aqui não vá descrevido [sic]. Passa tudo na verdade. São João Baptista de Bucos, vinte e dois de Maio de mil e setecentos e cinquenta e oito. António Alves Teixeira que o subscrevi e assinei e vigário António Alves Teixeira. E reitor Domingos Camelo de Sousa. O vigário João Ferraz Ribeiro.

Referências documentais:
IAN/TT, Memórias Paroquiais, Vol. 7, memória 87, pp. 1303 a 1306. – Obrigação à fábrica da capela de Santa Ana, 1753, 179, 485.

Texto transcrito, com actualização da grafia e pontuação, a partir de José Viriato Capela – As freguesias do distrito de Braga nas Memórias Paroquiais de 1758: a construção do imaginário minhoto seiscentista. Braga: Universidade do Minho, 2003.

(IMF)

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