Nuno Álvares Pereira no Entre-Douro-e-Minho (Crónica do Condestabre)

Com base na «Crónica do Condestabre», de autor desconhecido, editada em 1526, podemos seguir o percurso de vida de Nuno Álvares Pereira por terras do Entre-Douro-e-Minho.

O casamento em Vila Nova da Rainha (Azambuja)

No tempo em que Nuno Álvares Pereira vive na corte de D. Fernando, “sendo já da idade de dezasseis anos e meio”, seu pai decide propor-lhe casamento com “uma dona viúva por nome chamada Dona Leonor de Alvim, a qual foi mulher de um grande fidalgo e muito honrado a que chamaram Vasco Gonçalves Barroso”. Vive esta dama no “Entre-Douro e Minho”, sendo “mui filha dalgo e de grã guisa e ainda comprida de grande bondade: e de boas rendas e cabedal”.

O Prior do Crato, Álvaro Gonçalves Pereira, pai de Nuno Álvares, envia um seu cavaleiro ao “Entre-Douro-e-Minho onde a dona estava”, para que sonde a vontade desta fidalga em aceitar o casamento com Nuno Álvares. Leonor de Alvim não se opõe, colocando apenas como condição do enlace que o casamento receba a aprovação do rei D. Fernando, o que assim sucede: “El Rei prouve muito dele e mandou logo chamar a dona por sua carta, que viesse a ele sem outra delonga”.

Resolvida a aceitação do enlace por parte de Leonor de Alvim, obtida a aprovação do rei Dom Fernando, chamada Dona Leonor para que venha à corte, é necessário que Nuno Álvares concorde em casar. Parece não ter sido fácil convencê-lo…

Um dia seu pai tem com ele a seguinte conversa: “Nuno tu pero que sejas moço, é bem e serviço de Deus e tua honra que hajas de casar. E porque Entre-Douro-e-Minho há uma mui nobre dona manceba e de grande bondade, minha vontade é, se a Deus prouver, de casares com ela, e quero saber de ti o que dele parece”.

Nuno Álvares Pereira pede a seu pai algum tempo para pensar. De facto, com apenas dezasseis anos e meio, “assaz de pequena idade”, as suas preocupações resumem-se a “trazer-se bem ele e os seus, e cavalgar, e ir ao monte e à caça, não entendendo em amor de nenhuma mulher”. Gosta também de “ouvir e ler livros de histórias: especialmente usava muito de ler a história de Galaaz em que se continha a soma da Távola Redonda”. Galaaz era o seu herói, desejando “de se parecer a ele de alguma guisa e muitas vezes em si cuidara de ser virgem, se a Deus aprouvesse”. Por estes motivos Nuno Álvares Pereira, apesar de não querer contrariar a vontade paterna, resiste à ideia de casamento. Foi necessária a intercessão de sua mãe, Iria Gonçalves, e de alguns companheiros (Álvaro Pereira e Álvaro Gil de Carvalho) para que a sua relutância seja vencida e o casamento ganhe forma.

Entrementes, já Leonor de Alvim vem a caminho de Vila Nova da Rainha (Azambuja), local onde a corte se encontra, acompanhada de “seus parentes e criados de que ela havia assaz; levando deles o que entendeu que cumpria como dona muito honrada que era”, tendo sido muito bem acolhida pelo real casal.

Logo se chama o Prior do Crato e o seu filho, tendo-se de imediato realizado o casamento, “e Nuno Álvares recebido com a dona por palavras de presente segundo a Igreja de Roma manda; e não se fez outra festa como era razão de fazer, porque ela era viúva”.

Tendo Nuno Álvares Pereira nascido a 24 de Junho de 1360, e tendo casado “sendo já da idade de dezasseis anos e meio”, a data do seu casamento terá ocorrido no final de 1376 ou no início de 1377.

A estadia do casal Nuno Álvares Pereira e Leonor de Alvim, em Cernache do Bonjardim

No dia seguinte ao do casamento o Prior, seu filho e sua nora partem a caminho de Cernache do Bonjardim (Sertã). “E naquele lugar conheceu Nuno Álvares sua mulher; assim como homem deve conhecer a sua mulher. E como quer que muito tempo havia que a ela chamavam dona: com verdade se poderia dizer que desde aquele dia que a Nuno Álvares seu marido assim conhece se podia assim directamente chamar, porque posto que a dantes assim chamassem, ela era donzela”.

Acrescenta o autor da «Crónica do Condestabre» que Leonor de Alvim foi para o casamento virgem, pois “Vasco Gonçalves Barroso com que ela primeiro foi casada nunca dela houve tal conhecimento. E esta foi a verdade ainda que o ela sempre encobrisse com sua grande bondade, do que cobrou grã fama de bom nome”.

Em Bonjardim “folgaram Nuno Álvares e sua mulher em companhia do prior seu padre alguns dias, nos quais não foram pouco viçosos, porque haviam todas as coisas que lhes eram mister em grande abastança. E todos eram desejosos de lhes fazer prazer e vontade”.

A certa altura, entendeu Nuno Álvares Pereira “que era tempo de se partir, despediu-se de seu pai e isso mesmo se despediu sua mulher. E foram-se para Entre-Douro e Minho, onde sua mulher tinha sua casa de morada e havia seus herdamentos”.

A vida do casal no Entre-Douro-e-Minho: o nascimento dos filhos

Será que Nuno Álvares Pereira e Leonor de Alvim foram viver para Pedraça? Os documentos não o atestam mas a memória dos homens de Pedraça mantém viva esta crença.

No local onde moram são “bem recebidos e servidos de todos os da terra e visitados dos grandes da terra que vinham ver Nuno Álvares e se lhe oferecer com grandes amizades, como é costume de uns grandes e bons fazerem a outros. E Nuno Álvares a todos se oferecia e dava gasalhado e bom acolhimento segundo que era razão. De tal guisa que por seu bom gasalhado e doces palavras todos iam contentes assaz muito, e não sem razão ser assim, porque ele era de grã misura, e com isto bem razoado. E porém de pouca e branda palavra e de que a todo aprazia”.

Sendo jovem, Nuno Álvares Pereira despende seu tempo “em tomar honestamente prazer com sua mulher. E ela lhe dava bons conselhos das maneiras que havia de ter em aquela terra onde havia de viver”.

Segundo reza a Crónica que vimos citando, no tempo em que permanece no Entre-Douro-e-Minho, Nuno Álvares Pereira era “mais monteiro que caçador: como quer que de todo usava”, e como era “homem novo às vezes fazia na terra [das] suas, segundo seus vizinhos. E porém não tanto que sempre em ele não fosse o temor de Deus. Ouvindo suas missas e vivendo honestamente e bem com sua mulher”.

Nos primeiros anos de casados, residindo no Entre-Douro-e-Minho, o casal teve três filhos, dois rapazes que morreram ao nascer – “dous moços que logo morreram como nasceram” –, e “uma filha que houve por nome dona Beatriz que depois foi condessa de Barcelos: e casada com um filho d’El Rei João bastardo: e foi muito nobre senhora”.

Algumas estadas de Dom Nuno Álvares Pereira longe de casa

Passados, “2 ou 3 anos pouco mais ou menos”, ou seja, cerca de 1378-1379, tendo-lhe já nascido os três filhos, estando “a seu prazer em sua casa com sua mulher e filha que lhe já Deus dera”, é avisado da morte do pai, deslocando-se prontamente para ir assistir às solenes exéquias. Cumprido o seu dever volta a casa e aí se mantém até ao momento em que é chamado pelo rei Dom Fernando para que vá a Portalegre ter com o seu irmão Pedro Álvares Pereira, Prior do Crato, ajudando-o na guerra com Castela, em prol da manutenção das fronteiras do Entre-Tejo-e-Guadiana. Para aí se desloca levando consigo “vinte e cinco homens de armas: e trinta homens de pé escudados e todos bons homens e para feito”. Nuno Álvares Pereira está também presente no casamento de D. Beatriz com D. João I de Castela, que se realiza, em Elvas, em Abril de 1383.

Quando morre o rei Dom Fernando (22 de Outubro de 1383), “Nuno Álvares estava Entre Douro e Minho em sua casa com sua mulher”, dirigindo-se a Lisboa para assistir ao “trintanário” do rei.

Nuno Álvares Pereira durante a crise de 1383-1385: o encontro no Porto com a mulher e a filha

Começa então uma nova fase da vida do «Condestabre». Com a morte de D. Fernando, Nuno Álvares Pereira, apoia D. João I na sua pretensão ao trono de Portugal. A partir desta altura, final de1383, Nuno Álvares Pereira pouco tempo se mantém na convivência da sua família, no Entre-Douro-e-Minho, pois participa activamente nas lutas contra Castela.

Sabemos que em Abril de 1385, envolvido em pleno nas guerras contra os castelhanos, se encontra, no Porto, com sua mulher e filha: “e achou já sua mulher e sua filha dona Beatriz, que depois foi Condessa, no Porto: que poucos dias havia que vieram de Guimarães que estava por El Rei de Castela, onde grande tempo estiveram retidas. E um fidalgo parente de sua mulher que chamavam Gonçalves Pires Coelho, que estava no castelo de Guimarães as trouxe ao Porto furtivamente, e se tornou a Guimarães. E o condestável foi mui ledo de as no Porto achar, como achou sua mulher e sua filha. E com todo o seu prazer não lhe esquecia o que El Rei mandara fazer por seu serviço”.

Morte de Leonor de Alvim

Em 1387, quando decorrem as Cortes em Braga, morre, no Porto, Leonor de Alvim: “E estando assim o Condestável nas cortes em Braga lhe veio recado do Porto onde a sua condessa mulher estava que morta. E logo se o Conde partiu para lá, e com ele muitos cavaleiros e escudeiros. E fez fazer suas exéquias à Condessa. E a fez soterrar muito honradamente como cumpria. E mandou logo dona Beatriz, sua filha que era moça e estava aí com a condessa sua mãe, a Lisboa, para Iria Gonçalves, sua mãe. E ele tornou-se para El Rei a Braga”.

A partir desta data deixa de existir o elo que liga Nuno Álvares Pereira às terras de Entre-Douro-e-Minho, passando a sua vida a decorrer no sul do País, morrendo em Lisboa, no convento do Carmo, em 1431.

Nota: Neste texto segue-se de muito perto a «Crónica do Condestabre», de autor desconhecido e publicado em 1526, mas que se acredita ter sido escrito ainda durante o século XV. Para mais fácil compreensão do texto da Crónica, actualizámos a grafia e a pontuação.

Bibliografia

  • Crónica do Condestabre de Portugal Dom Nuno Álvares Pereira. Coimbra: F. França Amado editor, 1911.

(IMF)

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