Memórias de outros tempos: alimentação em Cabeceiras de Basto – o dia das lavouras

Dídia Teixeira, 85 anos, natural e residente na freguesia de Outeiro, concelho de Cabeceiras de Basto, fala-nos de como era o seu quotidiano num dia de lavoura. Recuemos até à década de 70 do século XX, memórias de uma época, onde a base de todo o sustento da família vinha da agricultura.
Na primavera, inícios de maio, faziam-se as lavouras, eram dias de grandes afazeres. Nada se fazia sem duas juntas de gado (quatro vacas), que puxavam o arado para lavrar o campo, as sacholas para compor e aplainar a terra, a grade puxada por uma junta de gado (duas vacas) para agradar (alisar) a terra e o semeador para semear o milho, ou como muitos chamavam antigamente grão ou pão, que a todos iria alimentar, como a broa de milho, o caldo de farinha, as papas, os mílharos, entre outros…
Nestes trabalhos era comum uma entreajuda, onde vizinhos e amigos eram convidados a trabalhar.
Era, assim, um pouco por todo o lado. Mas, em particular falemos do testemunho dado pela dona Dídia Teixeira, mulher de José Gonçalves Teixeira, mais conhecido pelo” Zé da Dilia”, falecido em julho de 2011, com 89 anos.
Por aquela altura, moravam no lugar de Cabovila, na freguesia de Outeiro e tinham nesse lugar uma lavoura, ou seja, uma terra de cultivo, com o nome de «Pé de Selada».
Na sua lavoura não faltavam amigos a quererem ajudar, tinham sempre 25 a 30 pessoas, diziam que a comida era boa e bem servida. Sabe-se que nessa altura a comida não era abundante, havia muita dificuldade, mas nesses dias, havia sempre que comer.
Os trabalhos começavam mal o sol raiava, mas antes, à medida que iam chegando ao campo, os participantes eram convidados a tomar um cálice de aguardente com uma fatia de broa de milho.
Todas as tarefas inerentes à cozinha ficavam a cargo da dona Dídia, mulher do “Zé da Dilia”. O beberete (nome dado pela Dona Dídia) era servido no campo por volta das 10h30, estendia-se uma toalha bonita de linho, que também era utilizada para cobrir o açafate que transportava 30 a 40 postas de bacalhau grandes e grossas fritas com ovo, e a acompanhar, broa de milho, azeitonas, tremoços e, num cântaro de madeira, ia o vinho. Finalizado o beberete, os trabalhos da lavoura prosseguiam…
Entretanto, em casa, preparava-se o almoço – arroz com frango – que era servido no final da lavoura, cerca das 14h30/15h00. À lareira num pote de ferro de três pernas, com capacidade para um almude (dois cântaros, cada um com cerca de 13 litros) de água, colocava-se a cozer durante 45 minutos três quilos de feijão branco. Depois fazia-se o ‘estrugido’ ao lado numa sertã, com azeite e bastante cebola picada. Quando a cebola ficasse muito lourinha, o ‘estrugido’ estava pronto, deitando-o de seguida no pote onde cozia o feijão, mexia-se, e a seguir juntavam-se quatro quilos de arroz. Ao lado numa panela de ferro com azeite, assavam-se cerca de sete frangos partidos aos bocados, que tinha sido temperado na noite anterior, com alho picado, vinho branco, sal e um pouquinho de colorau. Fazia-se ainda, um caldo de repolho (couve coração), com bastante feijão vermelho, batata e massa de cotovelo pequenina ou com castanhas.
De facto, na altura de apanhar as castanhas era costume reservar umas quantas para o caldo das lavouras. As castanhas eram colocadas a secar por cima do lume, sob um caniço feito com varas de castanheiro e choupo, e, depois de secas, eram descascadas e guardadas para fazer o caldo das lavouras. Mas, como as castanhas estavam secas era costume pô-las a demolhar de um dia para o outro antes de serem usadas no caldo.
O arroz com feijão e o caldo de repolho ou troncha, já era utilizado pela sua mãe nas lavouras, sempre sem carne pois não havia posses para tal.
No final da lavoura o almoço era servido na sala, em pratos da marca Sacavém. O comer era empratado pela Dona Dídia na cozinha, sendo o prato com o comer destinado a cada um colocado na mesa, bem cheio com o arroz de feijão e um bocado de frango, não faltando a acompanhar a broa de milho e vinho com fartura. No final era servido o caldo de repolho em tigelas da mesma marca dos pratos.
A face enrugada e as mãos calosas da dona Dídia denunciam a sua idade, mas também uma história de vida repleta de recordações. E sempre com um riso alegre, muito serena e tranquila diz: “Era assim antigamente!”


(FC)

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