Restauro do retrato de D. Gomes Soeiro

Em 2012, a C.M. de Cabeceiras de Basto adjudicou, através de concurso, às Oficinas Santa Bárbara – Conservação, Restauro e Divulgação de Bens Culturais, Lda., a recuperação de 9 pinturas sobre tela (onde se incluem 2 bandeiras procissionais de dupla face) pertencentes ao Núcleo Museológico do Baixo Tâmega, situado no Mosteiro de S. Miguel de Refojos. Esta intervenção culminou com uma apresentação pública do trabalho efectuado, no dia 14 de Março de 2013, na qual estiveram presentes a Arq. Paula Silva, directora da Direcção Regional da Cultura do Norte e o Eng. Joaquim Barreto, Presidente da C.M. de Cabeceiras de Basto.

RETRATO DE D. GOMES SOEIRO
Pintura a óleo sobre tela de linho de trama apertada e fina, com as dimensões aproximadas de 1,10 cm de largura e 1,87 cm de altura.
Sobre rústico fundo campestre, recorta-se a figura de corpo inteiro de D. Gomes Soeiro, fundador mítico do Convento, vestido à moda do séc. XVI-XVII, se tivermos em conta os pormenores da gola de canudos engomados (utilização proibida por Filipe III de Portugal), das fitas a prender perneiras, do chapéu baixo e com penas e do punho da espada, bem como a composição com plinto epigrafado em pedra.
Obra de boa qualidade estética e técnica, não seria de excluir a possibilidade de situá-la no período filipino de finais do séc. XVI e inícios do séc. XVII, dentro do espirito de afirmação da nacionalidade que perpassava por alguns meios aristocráticos e populares da altura.
Não apresenta moldura nem grade, visto ter sido encontrada enrolada dentro dum tubo do órgão da Igreja.

Devido às vicissitudes do seu historial (pelo menos desde a 2ª metade do séc. XIX, última referência que se conhece à sua exposição no Convento), podemos observar numerosos vincos, lacunas e enfolamentos na tela, cuja periferia (onde são visíveis as perfurações para fixação a uma primitiva grade) está desfiada e irregular. Esta situação agrava-se na zona inferior da pintura, o que pressupõe um mau estado de conservação quando ainda estava exposta.

Apresenta uma preparação extremamente fina com fraca aderência e a camada pictórica em processo de destacamento na interface preparação/tela, expondo o suporte têxtil, situação particularmente visível nas zonas de vincos, onde praticamente desapareceu a camada pictórica. Conjuntamente, verifica-se a existência de numerosas lacunas cromáticas que expõe a preparação subjacente.
Interessante assinalar a existência de rectificações da composição pelo próprio artista, particularmente visível no caso do dedo da mão esquerda.

Visto ser extremamente difícil manusear a tela, procurou-se planificá-la minimamente através de humedecimento com hidrocarbonetos fracos e colocação de pesos e pranchas. Em seguida, fez-se uma pré-fixação das rupturas mais fragmentadas cuja camada pictórica estava em destacamento. Aplicou-se, então, em toda a superfície cromática uma película de papel japonês e um adesivo comercial, o que permitiu o manuseamento da pintura em segurança, sem perda de material.

Após a escovagem de poeiras do reverso com escovas plásticas macias com aspiração controlada de baixa intensidade, procedeu-se a uma limpeza aquosa com esponjas macias (água desmineralizada, e Preventol) permitindo a remoção das poeiras mais finas e entranhadas na tela. Quer após a humidificação da tela como durante os dias seguintes, melhorou-se a planificação da tela através da utilização dum ferro de temperatura controlada e a aplicação de placas de madeira e pesos sobre a tela.

Devido à fragilidade e às numerosas lacunas da tela original foi necessário proceder a uma reentelagem total. A nova tela com fibra de 100% de linho, de dimensões superiores à tela original, foi lavada para remoção de goma e novamente imersa em água destilada para eliminação de resíduos. Uma vez seca e planificada a quente, aplicou-se em toda a superfície um adesivo comercial. Concluída esta operação, colocou-se a tela nova sobre a tela original, depois de também esta receber o mesmo adesivo, fazendo-se a união das duas com ferro de temperatura controlada e colocação de pesos durante 24 horas.
Procedeu-se, então, à limpeza da superfície cromática, para remoção dos excessos do adesivo aplicado, o que permitiu também a remoção de sujidades e poeiras soltas e compactadas. O verniz de superfície foi removido, após testes de solvência, seguido sempre de neutralização com um hidrocarboneto fraco.

Foi executada uma grade nova em madeira de pinho silvestre branco (vulgo “casquinha branca”, tratada contra o insecto xilófago), com tensores em aço inoxidável.
Trabalhando agora na superfície pictórica, todas as lacunas foram objecto duma rectificação volumétrica, utilizando para tal tela nova recortada à dimensão das lacunas que, por sua vez, foi coberta por uma massa de enchimento à base de gelatina animal e cargas neutras, nivelado com lixas finas, sem atingir as zonas limítrofes da camada cromática.

Os preenchimentos de lacunas na camada pictórica foram, então, objecto duma reintegração cromática com guaches acrílicos. Finalmente, a superfície cromática foi protegida com vernizes comerciais mates por pincelagem.
Na ausência de qualquer moldura, executou-se uma, de perfil fino, em madeira de castanho (igualmente tratada contra o insecto xilófago), tingida com corantes comerciais e acabamento a mistura cerosa.

Oficinas Santa Bárbara
Conservação, Restauro e Divulgação de Bens Culturais, Lda.

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