Restauro da pintura “Adoração dos Pastores”

Em 2012, a C.M. de Cabeceiras de Basto adjudicou, através de concurso, às Oficinas Santa Bárbara – Conservação, Restauro e Divulgação de Bens Culturais, Lda., a recuperação de 9 pinturas sobre tela (onde se incluem 2 bandeiras processionais de dupla face) pertencentes ao Núcleo Museológico do Baixo Tâmega, situado no Mosteiro de S. Miguel de Refojos. Esta intervenção culminou com uma apresentação pública do trabalho efectuado, no dia 14 de Março de 2013, na qual estiveram presentes a Arq. Paula Silva, directora da Direcção Regional da Cultura do Norte e o Eng. Joaquim Barreto, Presidente da C.M. de Cabeceiras de Basto. Posteriormente, foi apresentada uma comunicação sobre a intervenção de conservação e restauro das pinturas ao III Encontro de História Local – Memórias do Território, que decorreu no Museu das Terras de Basto, nos dias 17 e 18 de Maio de 2013.

ADORAÇÃO DOS PASTORES
Pintura a óleo sobre tela de trama muito apertada e urdidura de padrão, com as dimensões aproximadas de 188 cm de altura e 126 cm de largura.
Composição elaborada em que sobressaem as tonalidades azuis. Num céu de nuvens, donde irrompe um clarão em tons amarelos, destacam-se cinco anjos alados em que a figura central, de corpo inteiro, ostenta uma faixa com a inscrição «GLORIA IN EXCELCIS DE».
Sob um fundo arquitectónico com paisagem central, desenvolve-se a representação do Presépio, tendo como figura central S. José (colocado na bissectriz das linhas que nascem nos cantos), tendo a seus pés um anjo alado de mãos alçadas, celebrando o nascimento de Jesus que se encontra mais abaixo, desnudo sobre um pano branco. Estas três figuras estão organizadas num eixo longitudinal que, nascendo no anjo de topo, divide a composição em duas partes.
Do lado direito, ocupando todo o espaço a partir do canto, está representada a Virgem Maria em adoração, com túnica branca e panejamentos azuis. No plano superior, duas personagens, uma bem iluminada, com cajado e cesto de ovos, e outra que quase desaparece no fundo escuro.
Do lado esquerdo, mais três personagens, estando em primeiro plano um provável caçador de joelhos que ostenta à cintura uma grande faca, atrás do qual está representado um músico de gaita-de-foles erecto, ocultando a terceira personagem que quase se dilui no fundo mais escuro.
Esta pintura já foi objecto de estudo técnico e estilístico por parte das investigadoras Carla Pereira, Jorgelina Carballo e Sofia Santos.

Moldura em madeira de castanho, inteiramente pintada a tinta de óleo preta, só com a canelura interna dourada a folha-de-ouro. A moldura sobrepõe-se à pintura, ocultando pormenores da representação. A grade em madeira de castanho, com dimensões aproximadas à da pintura, encontra-se construída com malhetes simples e em rude “cauda de andorinha”, fixados com pregos de ferro que penetram na moldura. Não apresenta cunhas de estiramento nem arestas boleadas.

O suporte têxtil, muito desidratado, apresenta, na zona inferior, uma grande lacuna a toda a largura, a qual tinha sido colmatada com folha adesiva. Toda a tela oferece-nos numerosas pequenas lacunas, provavelmente com origem no forte desgaste do têxtil com particular incidência nas áreas de fixação da tela, devido à forte oxidação dos pregos. São observáveis vários enfolamentos devido ao colapso dos elementos de fixação da tela, e profundos vincos originados pelas duas travessas centrais cruzadas da grade.

100
3

A camada pictórica, com preparação branca muito fina e de boa aderência, exibe lacunas dispersas, resultado da degradação da tela na periferia das lacunas, de vincos e dobras, acentuado pelo destacamento pontual da policromia, devido à pulverização da preparação e da camada cromática.
A superfície está coberta por um espesso filme de verniz (de origem resinosa?), cuja oxidação deu origem a uma forte tonalidade amarelada e esbranquiçada, ocultando o cromatismo original.

16

Na primeira fase dos trabalhos, procedeu-se à remoção cuidadosa dos pregos que fixavam a grade à moldura, seguido de remoção dos pregos que fixavam a tela à grade.
Uma vez individualizada a tela, procedeu-se à remoção da fita adesiva, tendo sido suficiente para o efeito, o amolecimento com hidrocarbonetos fracos. Contudo, os adesivos remanescentes no reverso da tela, provavelmente siliconados, mostraram uma forte aderência ao suporte têxtil, obrigando à utilização de mistura de solventes. O reverso da tela foi escovado com escovas plásticas macias, auxiliado com aspiração controlada de baixa intensidade, de forma a eliminar as poeiras soltas e compactadas.

57
58

Colocou-se, então, sobre toda a superfície cromática uma película melinex e um adesivo comercial que, com auxílio de ferro de reentelagem de temperatura controlada, permitiu proceder à primeira fase de consolidação da camada cromática. Durante e após a secagem do adesivo, fez-se a sua planificação a quente para eliminação de áreas de enfolamentos e de vincos, operação melhorada pela aplicação de tábuas e pesos em cada fase de trabalho.
Após testes de solvência, os vernizes oxidados foram removidos com uma mistura de solventes, sempre acompanhado por neutralização com hidrocarbonetos fracos.

84
88

A nova tela com fibra de 100% de linho, de dimensão superior à tela original, foi lavada para remoção de goma e novamente imersa em água desmineralizada para eliminação de resíduos. Uma vez seca e planificada a quente, aplicou-se em toda a superfície um adesivo comercial. Concluída esta operação, colocou-se a tela nova sobre o reverso da tela original, depois de também esta receber o mesmo adesivo, fazendo-se a união das duas com ferro quente de temperatura controlada.
Esta operação permitiu aumentar as dimensões do suporte têxtil de forma a recuperar as zonas policromadas que se encontravam ocultas pela moldura.

98
100

Trabalhando agora na superfície pictórica, todas as lacunas foram preenchidas com tela de linho, redimensionadas para as lacunas pretendidas, e de seguida foram preenchidas com uma massa de enchimento à base de gelatina animal e cargas neutras. Os preenchimentos de lacunas na camada pictórica foram, então, objecto duma reintegração cromática com pigmentos inorgânicos e tintas a verniz para restauro.

101

Finalmente, a superfície cromática foi protegida com vernizes comerciais mates por pincelagem. Devido às características dos pigmentos utilizados em cada cor, às diferentes alterações sofridas pelas tintas das várias tonalidades e ao desgaste diferencial do suporte têxtil, a absorção e formação de filme do verniz apresentou variações substanciais em várias áreas da pintura. Para evitar a aplicação de camadas de verniz muito espessas, foram sendo feitas aplicações sectorizadas nas áreas de maior absorção, durante vários dias, até se obter a uniformização do filme de acabamento final.

De forma a permitir a recuperação das áreas pictóricas que se encontravam ocultas, fez-se um redimensionamento da moldura e da grade com elementos de madeira de castanho, bem seco e tratado. A grade recebeu também dois travamentos horizontais para melhor estabilização da estrutura, que não existiam originalmente, bem como com seis tensores em aço inoxidável. Na moldura, foi necessário executar de novo e aplicar travessas em toda a periferia, igualmente em madeira de castanho, de forma a possibilitar o enquadramento da pintura com novas dimensões.

102

Oficinas Santa Bárbara
Conservação, Restauro e Divulgação de Bens Culturais, Lda.

Esta entrada foi publicada em Descobrindo as colecções com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s