Breves apontamentos sobre a Páscoa, na segunda metade do século XX, em Cabeceiras de Basto

A Páscoa é uma festa religiosa que antigamente, mais do que agora, era intensamente vivida pelas famílias.
Na semana que antecedia o domingo de Páscoa fazia-se uma limpeza profunda à casa. Na manhã do dia de Páscoa colocava-se sobre as camas as melhores cobertas, e, na mesa da sala a melhor toalha branca que se possuía, enfeitada com uma bonita jarra de flores. E normalmente era o dia em que se estreava roupa.
No dia de Páscoa havia também o costume de os padrinhos oferecerem o folar aos seus afilhados. Até aos anos 80 do século XX era costume dar-se uma regueifa, algumas delas grandes, tão grandes que se podiam pôr ao pescoço. Hoje em dia costuma dar-se roupa ou dinheiro.
No caminho junto das casas, por onde passava o compasso pascal, faziam-se tapetes de flores da época, inteiras ou desmanchadas, as quais se espalhavam pelo chão.
O compasso pascal era encabeçado pelo sacerdote, seguido pelo homem que levava a cruz, o moço da água benta, pelo da campainha, o do saco das esmolas e ainda o dos foguetes. Mais ou menos a partir da década de noventa o padre foi sendo substituído, primeiro pelo seminarista e mais tarde por pessoas da freguesia.
Logo de manhã cedo iniciava-se a visita pascal. Numas freguesias começava com a celebração da missa, noutras simplesmente com a bênção, saindo de seguida a cruz, ao som do toque da campainha, para anunciar que o compasso já lá vinha. Nas freguesias maiores, o domingo de páscoa não era suficiente para se percorrer todos os lugares, havia então o domingo seguinte a que se chamava pascoela e noutras a segunda-feira de Páscoa.
O compasso entrava em casa. Davam-se as saudações e benzia-se a sala com a água benta. De seguida dava-se o crucifixo a beijar a toda a família. A passagem do compasso pelas casas festejava-se com o som do estalar dos foguetes.
À mesa colocava-se o pão-de-ló e vinho para o grupo fazer um pequeno beberete.
Havia também a tradição do folar do padre. Por volta da década de cinquenta do século XX, usava-se colocar ovos num prato em cima da mesa, um dos homens do compasso trazia uma cesta para os recolher. Mas ainda mais antigo, segundo Joaquim Teixeira, natural da freguesia de Pedraça, era a colocação de uma laranja na mesa com uma moeda espetada. Atualmente em Outeiro há famílias que ainda usam essa última tradição. Na década de setenta e oitenta muitas famílias davam ao padre uma rasa de pão (uma rasa de pão equivale a quinze quilos de milho) que mais tarde foi substituído por um envelope com dinheiro.
No dia de Páscoa o almoço era melhorado. Por volta das décadas de sessenta-setenta, Conceição Mouta, que na época morava em Cavez, fazia à lareira, arroz com galinha ou coelho. Mais tarde começou a fazer assados no forno, normalmente galo com batatas assadas e arroz, ou o cozido à portuguesa. A sobremesa era sempre o pão-de-ló.
Atualmente muitas famílias fazem o cabrito assado no forno.
Em Pedraça e em muitas outras freguesias no final da visita pascal as pessoas reuniam-se no adro da igreja, onde cada um voltava a beijar a cruz. Em Cavez em tempos passados, a visita pascal terminava no campo da feira do Souto da aldeia, onde se formava uma procissão em direção à Igreja.

Recolha feita por Fátima Magalhães. Os nossos informantes foram Conceição Mouta, 73 anos de idade, residente na freguesia de Pedraça, Joaquim Magalhães, 76 anos de idade, residente na freguesia de Pedraça e Dídia Teixeira, 88 anos de idade, residente na freguesia de Outeiro.

(FM)

Páscoa

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